Segunda-feira, 06 de Setembro de 2010
   
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Banquete de gigantes

A economia brasileira está ganhando um perfil muito parecido com o encontrado em países desenvolvidos. Já não é difícil apontar por aqui corporações gigantescas, detentoras de parcelas sabidamente dominantes dos mercados em que atuam. São exemplo a Brasil Foods, resultado da fusão de Perdigão e Sadia, ou ainda o Pão de Açúcar, que abocanhou em curto espaço de tempo o Ponto Frio e as Casas Bahia, reforçando de maneira acentuada a sua participação no varejo de eletroeletrônicos, onde operava com a marca Extra. No meio do banquete das empresas está o consumidor, preocupado com o impacto que tamanha festa terá em seu bolso.

Para Arthur Werner Menko, professor de Direito da Faculdade Veris Ibta, a concentração não é boa nem má, em si. “Os economistas argumentam que as empresas ganham escala, o que poderia resultar em queda nos preços”, diz ele. “Por outro lado, essa concentração poderia dificultar a concorrência, e, aí sim, tornar-se prejudicial ao consumidor”, acrescenta. Ele frisa que o importante mesmo em todo esse processo é que o mercado esteja protegido pela facilidade de entrada de novos concorrentes ou de similares importados para brigar pela preferência do consumidor. “Nos processos de defesa da concorrência, a análise não pode levar em conta apenas o percentual de mercado que a empresa detém, mas a competição que ela enfrenta”, assinala.

Protecionismo
Alcides Leite, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios, avalia que a tendência de constituição de megacorporações é algo que veio para ficar. “As empresas precisam ganhar porte para concorrer em nível internacional. E a recente crise mundial ofereceu muitas oportunidades para as firmas brasileiras, algumas bastante capitalizadas quando os problemas se agravaram”, afirma. Leite destaca ainda que várias companhias adquiriram unidades no exterior. “Nesse caso, elas podem trabalhar melhor em termos cambiais, logísticos e de escala”, explica. E, por tabela, escapar do protecionismo, que cresceu durante a crise.

“O Brasil está seguindo a tendência natural de uma economia que está ocupando mais espaço no mundo”, diz o professor da Trevisan. E, ao crescer, abre espaço para que firmas de menor porte entrem no mercado como fornecedores. “As pequenas passam a integrar a cadeia produtiva dessas corporações. Ou ainda podem atuar em nichos”, emenda.

Para o sócio de mercado e estratégia para a América do Sul da Ernst & Young, Carlos Alberto Miranda, a crise foi um catalisador de todo esse processo. “A c onsolidação na economia brasileira iria ocorrer mais cedo ou mais tarde, mas os problemas mundiais aceleraram o ritmo desse ajuste”, frisa. Enfrentando sérios problemas, muitas empresas no exterior tiveram que interromper a estratégia de crescimento que estavam tocando para proteger seus ativos. “Algumas tiveram até mesmo que vender parte de suas operações para fazer caixa, já que o crédito ficou bastante limitado com a crise”, lembra. “Esse conjunto de fatores contribuiu de forma decisiva para que a economia brasileira ficasse mais sofisticada e ganhasse um viés empreendedor diferente.”

Empreendedores
Para Miranda, estamos assistindo ao desenvolvimento de uma nova geração de empreendedores. “Há alguns anos, o perfil mais comum era do empreendedor por necessidade. Era aquela pessoa que desenvolvia alguma atividade por falta de opção de emprego. Agora, o que se vê no mercado são executivos e até estudantes que elaboram um plano de negócios e abrem suas empresas de maneira mais profissional”, afirma. O sócio da Ernst & Young conta que aqueles que ganhavam o prêmio Empreendedor do Ano na categoria emerging (emergente), conferido pela própria consultoria, demoravam de cinco a seis anos para ficar robustos. “Hoje, de um ano para o outro, a empresa se transforma, fruto de planejamento e suporte financeiro, com os créditos oferecidos ao empreendedorismo”, ressalta.

Mas a economia brasileira tem gargalos e os estrangeiros estão atentos. “Temos carências graves na formação de pessoal e em infraestrutura, aspectos que podem colocar o país em uma situação de vulnerabilidade”, alerta o sócio da Ernst & Young. Afinal, as empresas brasileiras mudaram de patamar muito rapidamente. “Percebe-se uma clara tendência de mudança no perfil da economia, que deve migrar de industrial para serviços”, diz Alcides Leite, professor da Trevisan. “Esse é o perfil que as economias mais maduras apresentam”, conclui.

O Brasil está seguindo a tendência natural de uma economia que está ocupando mais espaço no mundo”

Fonte: Correio Braziliense

 
 
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